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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A LÓGICA DO NEURÓTICO OBSESSIVO


* Jorge Roberto Fragoso Lins

Segundo a psicanálise, o obsessivo é um indivíduo que foi investido pelo desejo materno como objeto privilegiado de seu investimento fálico, tornando-se um eterno nostálgico do “ser”, ou seja, de ser o falo da mãe, ou melhor, dizendo, de ser o suplente que irá preencher um vazio. Vazio provocado por uma lacuna que existe na relação entre a mãe – mulher e o marido.

A nostalgia do obsessivo está na lembrança de um modo de relação que a mãe manteve com ele, uma relação que o colocou em posição de passividade sexual, e é justamente essa posição que produz o gozo no obsessivo, em outras palavras, a criança é induzida a uma incitação à passividade. A mãe busca um complemento de sua satisfação e chama o filho a suprir a falha que existe em seu gozo materno. Não confundamos tal comportamento como um ato perverso.

Para melhor compreensão vamos estabelecer uma diferença entre à lógica da neurose-obsessiva e à lógica da perversão. No primeiro, trata-se de uma suplência à satisfação do desejo da mãe por considerar que a satisfação que a mãe tem com o pai é insuficiente. Na neurose obsessiva do ponto de visto edipiano existe o reconhecimento do pai e da castração. Já, no segundo, não existe o recalque, portanto não existe o reconhecimento da instância da lei, ou seja, do pai, mas uma renegação (Verleugnung), que corresponde a uma dupla posição a um só tempo. Existe o reconhecimento de que a mãe não tem o falo, mas também a negação desse reconhecimento.

Na representação da criança a mãe tem o falo, mas esse falo é deslocado para um fetiche, e assim renega-se a diferença sexual, ou seja, todas as mulheres têm o falo, a saber, o pênis. No que se refere à relação tripartite, pai, mãe e filho, o primeiro é excluído, ou pela ausência de um amor entre o casal, ou por falta de desejo desse homem por essa mulher ou vice-versa, ou porque o pai é extremamente fraco. Enfim, a relação mãe-filho é uma relação extremamente colada – que fique claro que essa relação colada da qual me refiro não é a simbiótica que favorece as psicoses – e o filho torna-se objeto de desejo da mãe. Tomo um exemplo de um caso que tive conhecimento por uma professora da pós em psicanálise da qual cursei, que uma mãe continuava amamentando um filho que já havia completado quinze anos de idade. Tal ato configura-se em uma relação sexual entre mãe e filho, em um incesto. Portanto, em um ato perverso.

Tecidas as devidas diferenças entre as duas lógicas, retomaremos a lógica obsessiva. A mãe do obsessivo apareça aos olhos do filho como parcialmente insatisfeita, como um vazio a ser preenchido por ele. Nessa relação o filho ocupa uma posição de suplência de um gozo que a mãe não possui na relação com o companheiro. É importante lembrar que ocupar o lugar de objeto de suplência do desejo da mãe é ocupar a suplência da satisfação do desejo materno, por achar que a satisfação que a mãe tem com o pai é insuficiente.  

A mãe que age dessa forma deixa a criança presa a uma condição de suplência, e como tal experiência ocorre prematuramente à criança aferrar-se ao desejo insatisfeito da mãe. Será através de sua identificação fálica, ou seja, de sua  passividade sexual em relação à mãe, que a criança obsessiva passará pela passagem do “ser” ao “ter”. Esta passagem terá um complicador em especial para o obsessivo que não tem para os outros neuróticos. O que deveria ser apenas uma  insatisfação ao transitar do lugar do “ser” para o “ter”, ocorre uma retenção, ou seja, o sujeito fica preso na relação de suplência que mantém com a mãe, isso porque a criança não conseguiu mediatizar seu desejo. O obsessivo não deixará de lembrar a que ponto essa experiência precoce de prazer com a mãe constitui para ele um obstáculo na economia do seu desejo. A criança que é colocada como objeto de suplência é extremamente seduzida pela mãe que a induz a uma incitação sexual e, consequentemente, a um gozo. Este gozo prematuro, extremamente provocante e incestuoso será também o pior dos fantasmas, o pior dos pesadelos para o sujeito.

Todos nós sabemos que o desejo só se constitui quando existe a falta. Será por ser marcado pela falta que o indivíduo se torna um sujeito desejante. No neurótico obsessivo, entretanto, a mãe não concede o tempo da falta sufocando a criança com o seu desejo. Na dinâmica do desejo é importante dizer que ele se separa da necessidade para então formar-se em demanda. No obsessivo, no momento em que o desejo é separado da necessidade, ele é imediatamente tomado pela mãe insatisfeita que encontra aí um objeto de suplência possível.

O caráter do desejo do obsessivo é sempre apressado ou, melhor dizendo, apressa-se em ter a posse do que quer, ou seja, não é para onde e nem tampouco para amanhã, mas para já! Por que o obsessivo se comporta dessa maneira? Porque o seu desejo é carrega para insígnia da mãe, ou seja, está e sempre esteve carrega pelo fazer da mãe que não concedia o tempo necessário reservado para o imperativo e exigência da necessidade produzir uma demanda, uma demanda de amor, que pudesse existir o que é mais precioso na constituição subjetiva do sujeito, a saber, a falta.

O acesso ao universo do desejo e da própria lei – figura de autoridade – para o obsessivo constitui algo problemático já que, tal relação reaviva a imago paterna ou, melhor dizendo, reaviva a relação que mantém com o pai. O obsessivo é extremamente vulnerável a perda, a perda de algum objeto lhe reporta à castração e, portanto, a uma falha em sua imagem narcísica.

Os obsessivos como tem dificuldades em formular uma demanda se sentem obrigados a assumir o lugar de objeto do gozo do outro, repetindo assim, o papel que sempre tiveram. Coloca-se numa condição favorável de tudo para o outro, e como já mencionamos, não suporta perder tal posição e busca de toda forma controlar e dominar para que o outro não lhe escape isso porque a perda de alguma coisa lhe reporta à castração e a uma falha em sua imagem narcísica.

Não é que não exista desejo no neurótico obsessivo, mas a forma de como ele vai lidar com o seu desejo é que será problemático já que, tal condição de demandar partia da mãe. No entanto, quando o mesmo acontecer terá sempre o selo do imediatismo. O desejo do obsessivo comporta sempre a marca cruel da necessidade. Necessidade de quê? De permanecer na eterna suplência de favorecer o desejo e o gozo da mãe.  Os obsessivos são os nostálgicos do “ser” que lembram sempre a relação que tiveram com a mãe, estando eles presos a esta relação.

O obsessivo tem uma relação de rivalidade com o pai e ao mesmo tempo de culpa, pois ele busca substituir o pai junto à mãe. Essa relação transpassa para o comportamento desse sujeito na vida social. A preocupação em ter o lugar do pai leva o obsessivo a todas as lutas para obter prestígio, a combates grandiosos e dolorosos e é detentor de grande perseverança. Acrescenta-se a destruição do complexo de Édipo a degradação regressiva da libido; o Supereu torna-se especialmente severo e duro; já o Eu, por ordem do Supereu, desenvolve importantes formações reacionais que tomam a forma de escrúpulo, da piedade, da limpeza.   

O que se observa é que o obsessivo trava um forte conflito com tudo que se refere à transgressão. O sujeito aparenta ser extremamente honesto, possui um grande rigor moral, respeitador das regras e das leis, enfim, um indivíduo que apresenta um escrúpulo intocável. No entanto, toda essa legalidade revela o desejo inconsciente de transgredi-la. O obsessivo diante de seu objeto de amor tende a repetir o mesmo que sua mãe fez com ele, ou seja, vai se empenhar para que nada falte ao outro e não seja, portanto, levado a sair do seu lugar. O universo do outro deverá ser ordenado e será através dessa ordenação que nada tem de democrática, mas extremamente totalitária, que o obsessivo controla e domina a morte desejante do parceiro. Um exemplo clássico é o discurso de alguns homens que dizem: “não lhe falta nada, ela tem tudo em casa, ela não precisa trabalhar, e assim por diante. Outro aspecto da economia do desejo está no caráter da necessidade do dever que margeia a organização obsessiva do prazer.  

Formulando uma etiológica sobre a neurose obsessiva, Freud (1894 a 1905), estipula dois tempos de ordem. No primeiro tempo ele diz: houve na infância uma excitação sexual precoce (de início supostamente provocada pelo adulto, após 1897, supostamente espontânea). Se esse trauma é sofrido passivamente na histeria, por outro lado houve atividade com prazer na neurose obsessiva. No segundo, ele menciona que os afetos que dele decorrem são inconciliáveis com o Eu (Moí). Esses afetos se desprendem de suas primeiras representações para operar uma “falsa ligação” com novas representações por deslocamento.

Essa substituição representa uma defesa do Eu. Não existe recalque sem a volta do recalcado. Ao contrário da histeria que o recalcado vem através da conversão somática, na neurose obsessiva, vem por transposição para outras representações que sejam mais conciliáveis com o Eu. São estas as obsessões propriamente ditas como formações de compromisso, como auto-reprovações, inibições em agir, isolamento de uma representação, anulação de acontecimentos passados, rituais privados. As defesas do Eu se incumbem de realizar uma regressão ao estágio anal. Em seu artigo datado de 1908, “Caráter e erotismo anal”, Freud estabelece o vínculo entre o objeto anal e a neurose obsessiva com sintomas de preocupação de ordem ou de limpeza e com os de teimosia.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia. 



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O COMPLEXO DE CASTRAÇÃO E A LÓGICA HISTÉRICA


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Na psicanálise, o principal critério de observação para se considerar  uma estrutura clínica é mediante ao mecanismo de defesa do indivíduo frente à castração, ou seja, a forma como o sujeito reage ao defrontar-se com a falta, com a ausência do pênis no corpo da mãe e, consequentemente, como  foi realizada a operação subjetiva diante dessa descoberta. Tratando-se do neurótico o mecanismo chave é o recalcamento. O sujeito que se enquadra na estrutura neurótica ao se defrontar com a falta do pênis no corpo da mãe  efetua uma operação substitutiva que terá a seguinte passagem: de um “não-tem” por um “não-sei”. Esta operação que tem como finalidade um “não-querer-saber-nada” a respeito do horror da castração, ou seja, de ver que sua mãe foi castrada pelo pai e se ele persistir em querer ser o centro das atenções e do amor da mãe também poderá vir a ser castrado, ao alcançar a condição do “não-sei”, pode-se dizer que a operação do recalque secundário foi efetuada com êxito. Em outras palavras, a operação que o neurótico realizada é a de negar a representação criada, conservando, no entanto, aquilo que é negado no inconsciente.

Este recalque só é possível graças ao efeito do recalque originário. Segundo Freud, este é o primeiro núcleo do recalque que tem como efeito a formação de algumas representações inconscientes. O que ocorreria entre o dois recalque é explicado através de um efeito de atração, onde os conteúdos do segundo recalque seriam atraídos para o núcleo que se formou com o primeiro recalque, o originário.

No recalque secundário existe uma dinâmica semelhante à de uma quebra-de-braço, ou seja, ocorrendo um investimento do inconsciente em direção a consciência e, em contrapartida, um contrainvestimento por parte dos sistemas pré-consciente e consciente para manter a representação intolerável fora da consciência, existindo um conteúdo inconsciente que exerceria atração sobre a representação indesejável.

Para que possa existir a castração é necessário que a mãe institua o pai em seu devido lugar, a saber, de ter o falo, de ser a razão de seu desejo. Nessa dinâmica, o pai ocupará um lugar privilegiado, o de ser o ao-menos-um que fugiu a castração. Ocupando esse lugar o pai lançará sua metáfora, a saber, a Metáfora Paterna, produzindo uma operação que decidirá a vida futura desse indivíduo. Estão envolvidos nessa relação edipiana os seguintes atores: a mãe, o pai, o filho e o falo. O pai não necessariamente significará um nome. Conforme afirma Jullien, esta metáfora é uma ordem simbólica a quem se chama de pai. Será pela existência desse nome que se funda na humanidade a ordem das gerações e instaura a lei,  fazendo por onde a sociedade humana seja completamente diferente de todo arranjo natural. O nome se encontra na origem do sistema simbólico pelo qual se desenvolve toda a vida humana, a partir de um sistema independente e singular de cada sujeito. O acesso a esse nome somente acontece na via aberta pela mãe em função da castração.

O pai ao ocupar o lugar do “ao-menos-um” que fugiu a castração frente à representação do filho, já que o pai tem o que a mãe deseja, ou seja, só ele tem o falo, por si só isso já seria um grande efeito na subjetividade da criança, pois inscreveria a falta no filho por ele saber que não é o centro de todas as atenções da mãe, ou seja, existe um Outro, um rival que a mãe deseja muito. Mas para que isso aconteça de fato à mulher deve desejar esse homem e ele deve desejar essa mulher. Caso contrário, se esse homem não ocupa o lugar de desejo para ela, corre-se o risco da mulher querer ocupar o vazio que provoca essa ausência investindo o filho como objeto privilegiado do seu desejo, privilegiado em seu investimento fálico, ou seja, o filho preferido da mamãe. Quase sempre na história dos obsessivos escutam-se relatos que teriam sido os preferidinhos da mamãe.

Na medida em que a criança descobre não “ser” e nem tampouco não “ter” o falo, incia-se o declínio do Complexo de Édipo, ou seja, já estamos falando do terceiro tempo do complexo que corresponde à dialética do ter. Acaba a rivalidade fálica com o pai que agora passa a ser buscado como aquele que “tem o falo”, começando, assim, a fase da identificação simbólica, também conhecida como identificação com a insígnia paterna, que corresponde com a aquisição do Ideal do Eu. O que isso significa? Que o significante paterno foi internalizado pela criança como Ideal do Eu. Com isso, abrem-se as possibilidades para as identificações que não a do falo. O menino renuncia a “ser o falo” da mãe e, mediante a dialética do “ter o falo”, poderá se identificar com aquele que tem o falo, ou seja, o pai ou quem ocupe a função paterna. A menina também renuncia em “ser o falo da mãe” e dentro da mesma dialética do “ter”, identifica-se com a mãe sob a condição do “não ter”, fomentando o desejo de ir em busca daquele que o tem, a saber, o substituto paterno. Em ambos os casos o operador das identificações é o falo, que corresponde a uma lógica fálica, a lógica do significante que funda a castração.

A castração possui uma dialética que não se limita apenas a criança, mas também a mãe. Já mencionamos anteriormente a questão da mãe que investe o filho como objeto privilegiado do seu desejo, privilegiado em seu investimento fálico. Isso ocorre devido a uma falta que essa mãe sente e busca preencher com seu filho, ou seja, é a mesma coisa de dizer para a criança que ela é o falo da mãe, que ela é o que falta para a mãe ser feliz, que ela é o único objeto de desejo da mãe, o objeto que complementa, e assim por diante. Tal comportamento será extremamente prejudicial para a subjetividade da criança, podendo gerar inúmeros conflitos e transtornos de personalidade. Como já dissemos anteriormente, os obsessivos-compulsivos são vítimas dessas mães.

Indo mais à frente nesta questão, a mãe que investe o filho como seu objeto privilegiado, o objeto de seu desejo e, por outro lado, não confere ao marido (pai) seu lugar de direito, a saber, o objeto de seu desejo, passando por cima de sua lei, elegendo, por exemplo, o significante para o filho de “meu homenzinho”, deixando o filho dormir entre o casal já estando ele mais velho ou, mesmo, o filho dormindo na mesma cama com ela e o marido em outra ou em outro quarto, dando de mamar ao filho até uma idade que já passou e muito do período de amamentação, como por exemplo, mães que dão de mamar a filhos que já atingiram a idade de cinco, sete e até dez anos. Tive conhecimento por uma professora da pós em psicanálise da qual cursei que uma mãe amamentava um filho que tinha quinze anos de idade. Todas essas práticas mencionadas são práticas perversivas que poderão estruturar a criança numa estrutura perversa. A castração materna não acontece da mesma forma como ocorre com a criança, mas se trata de uma forma de privar o gozo da mãe em relação ao filho, evitando que a mulher mesmo que seja inconscientemente, coloque o filho para preencher a ausência do marido.

Independente que existam ou não tais fatores, a castração só de fato se efetuará quando a instância paterna produzir a ruptura da relação especial dual entre a mãe e a criança, a saber, quando a mãe permitir a entrada do pai nessa relação. Com o livre acesso do pai, o mesmo terá que executar seu papel, a saber, o do significante binário. O significante binário ou S² é o que incide o recalcamento, em outras palavras, podemos dizer que o pai se compromete em fazer uma cisão cirúrgica de separar o filho que está completamente alienado ao desejo da mãe, ou seja, ao desejo do Outro Primordial, primeira significação da qual o sujeito será efeito, instituindo, assim, a falta. Essa operação deixará um resíduo, um resto, um produto com o qual o indivíduo identificará sua “falta-a-ser”. A perda implicada nessa passagem irá determinar uma busca incessante por algo a ser recuperado, melhor dizendo, esse é o desejo inconsciente, uma busca incessante e vista por algo que falta, algo que não existe. É uma perda simbólica. Estamos, portanto, diante da segunda operação da lógica do significante. A primeira se constitui da alienação da criança à sua mãe, e a segunda, o descolamento da criança de sua mãe, ou seja, inscrever a falta na criança para que ela possa se constituir como sujeito desejante.

No campo do desejo e, consequentemente, do simbólico, a criança teve muitos ganhos, como por exemplo, o desejo de um parceiro sexual.  O processo de castração do neurótico está ligado à negação que o sujeito faz da falta, da castração, ou seja, corresponde a um processo pelo qual acontece o deslocamento do sujeito – criança – da posição de saber absoluto para se submeter a algo que lhe antecede: o saber do pai sobre o gozo materno. Como já mencionamos anteriormente, o neurótico ao se defrontar com a falta de pênis da mãe, efetua a substituição do “não-tem” por um “não-sei”. O “não-sei” é o efeito imediato do recalque. O “não-tem” que corresponde à falta de pênis na mãe se inscreve no inconsciente como um “não-sei”.  O “não-querer-saber-nada” a respeito é o motivo pelo qual, como “saber-não” sabido, esse saber surgirá no discurso. O recalque irá sinalizar para o surgimento desse não saber que virá no inconsciente como linguagem própria, pelo fato de haver um universo simbólico que nos informa ser esse sujeito sabedor de que algo se encontra recalcado.  

Na cultura, o indivíduo recorrerá a objetos que possibilitem solucionar esse “não-sei”, através do discurso intelectual, da criação, da sublimação e outros. A busca de saber mostra exatamente que o neurótico tem um saber parcial das coisas visto que, quem de fato tem o pleno saber, sendo este o saber sexual, é o pai que já tinha pleno conhecimento do enigma, o enigma de sua mãe não ter o pênis. Esse saber fica recalcado, ou, melhor dizendo, fica inconsciente, indisponível para o consciente. No entanto não desapareceu, estará sempre lá. É por isso que o indivíduo precisará encontrar soluções de compromisso para sustentar seu desejo, impossível de ser satisfeito, a saber, o desejo do incesto, segundo Freud. Em outras palavras, de ser o falo, de fazer Um com a mãe, de preencher a falta da mãe. Freud ao nomear a expressão “solução de compromisso” quis mencionar o sintoma, melhor dizendo, o fazer sintomas. Diante da estrutura neurótica encontramos três possíveis maneiras de solucionar a falta ou fazer sintoma, a saber, a histérica, a obsessiva e a fóbica.

Na histeria, o sujeito sabe sobre a existência da castração que é sempre do Outro. Idealiza o Outro como sendo um grande mestre ou um grande homem, fazendo-o potente, fazendo de conta que ele tem o falo para então se fazer amar por ele. Fazer-se amar por esse Outro pela via do amor ou da paixão, representa para o sujeito histérico provocar o desejo do Outro. A operação realizada pelo histérico de sentir-se desejado e, com isso, alimentar a ilusão de que o Outro pode lhe oferecer as insígnias fálicas com as quais possa se identificar, já que ao se identificar com a mãe – a mãe que não tem o falo –  fez com que ele também não o tivesse e como não existe um significante para o “não ter o falo” – significante da mulher –, existirá, então, a exaltação daquele que tem e pode lhe dar o que tanto ele almeja, ou seja, o falo. O que o sujeito histérico quer é apropriar-se do atributo fálico de que estima injustamente desprovido. A passionalidade da paixão do sujeito é um mecanismo característico da própria histeria para denegar a castração.

A histeria é uma forma de vivência do desejo como desejo do Outro. O sujeito só consegue desejar e se identificar única e exclusivamente pela via do amor ao Outro, a saber, do desejo do Outro. Esta é a única forma que o sujeito encontrou para driblar sua angústia de castração, sustentando seu desejo como um desejo eternamente insatisfeito. O arranjo fantasmático de uma histérica será sempre uma cena de amor ou de sedução, fazendo nascer no corpo do outro uma fornalha ardente de libido, ou seja, o “Eu Histericizante” da histérica está em pleno funcionamento. A histérica a princípio demonstra um forte erotismo genital, uma exacerbação de sua sexualidade genital, sua fala é carregada de sensualidade que provoca no outro uma imaginação com forte conteúdo erótico e, consequentemente, efeitos erógenos no corpo que faz com que o outro creia que existe de fato o desejo e a intensão de uma relação sexual, mas tudo não passa de um engodo, uma astúcia sedutora e enganosa, uma aparência, um simulacro de sexualidade que está mais próximo da masturbação e das brincadeiras sexuais infantis do que do ato sexual. O que inconscientemente a histérica (o) quer é que o ato sexual fracasse, deixando sempre seu desejo insatisfeito.

Quando nos reportamos à histeria masculina que em termos de índice é menor do que a feminina, sobressaindo esta última em relação à primeira, uma  característica que se repete é a sedução, ou seja, a sedução faz parte tanto da histeria feminina como da masculina. O histérico oferece seu amor sem se poupar, porém fiquemos cientes de que é um amor de faixada, já que o histérico é incapaz de se engajar, realmente, com a sedução. Um traço característico da histeria e de sua insatisfação é o de desejar ser amado por todos, sem perder nenhum objeto de amor, mas sem se fixar, o que irá denotar o traço de insatisfação pertinente a sua estrutura. O histérico tem uma incapacidade de gozar em uma relação sexual, pois tem a parte genital surpreendentemente anestesiada, atingida por fortes inibições sexuais, podendo existir frigidez, impotência, aversão sexual, etc.  

Outro traço da histérica está em seu sacrifício em tentar preencher o que imagina ser o prazer do outro, colocando-se sempre a serviço do outro. No entanto, existe uma intencionalidade nesse sacrifício, o de ser vista por esse outro. Esse caráter sacrificial representa a permanência da identificação com o falo do outro.  

Outros aspectos peculiares da histeria são a dramatização, a sugestionabilidade e a reação emocional inadequada. O histérico dramatiza o tempo todo e essa dramatização fica ainda maior em situações com maior apelo emocional. Quando estão doentes alardeiam de forma teatral seu sofrimento não só pela fala, mas em gestos e no próprio andar; se estão tristes, irrompem em choros convulsivos; já alegres, dão estrondosas gargalhadas.  Nas mulheres existe um acentuado exagero caricatural da feminilidade, roupas exageradas, brincos e colares que chamam atenção pela extravagância ou  tamanho; já nos homens, existe uma certa afetação. Como são extremamente teatrais são poucos fieis à verdade, existindo sempre certo adorno, verniz que falseia seu discurso. As pessoas que se utilizem das mesmas táticas de sedução e galanteios das histéricas serão vistas por elas como rivais.

As histéricas podem se tornar sexualmente promíscuas já que, como mencionamos anteriormente, elas desejam ser amadas por todos, sem perder nenhum objeto de amor, sem se fixar, o que denota o traço de insatisfação peculiar a sua estrutura.

Os histéricos são extremamente sugestionáveis e podem ser influenciados tanto por pessoas quanto por situações. Um exemplo explicativo é o de compartilhar a companhia de um doente e horas depois vir se queixar dos mesmos sintomas só por causa da convivência com a pessoa que de fato estava doente.

O corpo da histérica é marcado pelo significante que através do sintoma de conversão servirá de suporte ao sintoma que é constituído pelo campo do significante do outro. Conforme Freud, a conversão é uma manifestação somática idêntica ao desejo, onde solidariamente participam o psíquico e o somático, reportando-se a outra cena em que está em jogo uma satisfação substitutiva de uma fantasia de conteúdo sexual. Para Lacan, a histeria seria uma tentativa de identificação com um sujeito desejante cujo objeto está em posição terceira, e essa identificação só será possível pela via do sintoma que lhe serve de marca, uma espécie de registro, de inscrição dessa estrutura. Em resumo, a grande questão que ocupa a vida psíquica da histérica é sua recusa ao gozo, o seu medo de gozar, e para afastar essa ameaça de um gozo maldito e temido, a histérica inventa inconscientemente um cenário fantasístico, onde busca provar a si mesma e ao mundo que só existe o gozo insatisfeito, e para manter seu descontentamento, ou seja, a sua insatisfação, ela sempre considera o outro como decepcionante, sempre será o sujeito de sua insatisfação.


* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia. 


sexta-feira, 26 de julho de 2013

COMO A SOCIEDADE VEM REAGINDO AO SEU MAL-ESTAR?


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Vive-se em um mundo que não se admite a menor angústia, o menor sofrimento, a menor tristeza que logo se busca o fim do mal-estar através da química. A cultura atual dentre outras coisas posiciona-se contra qualquer tipo de mal-estar, o que nos deixa intrigado se isso de fato é possível e nos reporta a dois questionamentos: que tipo de estrutura psíquica é essa que não suporta a mínima angústia, a mínima tristeza, o mínimo mal-estar que logo parte para a medicalização? Que sujeito é esse que não suporta sofrer? Que indivíduo é esse que para se livrar de algum mal-estar recorre as mais variadas dependências que, pelas repetições, tornam-se compulsivas? Afinal de contas, o mal-estar representa fator constitutivo do sujeito, pois significa algo de sua realidade e pelo que se parece, deseja-se a todo custo fugir de qualquer realidade que traga infortúnios.

Segundo Melman (1992), “as coisas começam a ir mal quando há um movimento de idéias, de modificações éticas que começam a dizer que o mal-estar não é um bem”. A isso, leva-nos depreender que o sujeito contemporâneo não busca se conhecer em sua integralidade corpo e mente. Isto, porque é preferível a fuga ao doloroso embate de se reconhecer no sujeito do inconsciente, onde serão reveladas suas verdades, retendo-se, assim, apenas a subserviência de seu discurso consciente que é muito mais prazeroso.

O consumo apresenta-se como um dos grandes imperativos desse novo tempo, ou seja, como um fenômeno que representa a lógica do moderno hedonismo, a saber, a busca incessante do prazer. Debord (2006) faz um neologismo interessante entre o consumo e a dita por ele “sociedade do espetáculo”. O autor menciona um mundo regido pela economia do consumo, tendo a mercadoria como centro absoluto da vida social, gerando a passagem do ser para o ter. Os objetos substituiriam os valores éticos, onde ocorre uma ininterrupta fabricação de “pseudo-necessidades”.

Debord demarca a contemporaneidade centrando o triunfo do individualismo em associação ao consumo e como demanda incessante de prazer, criando modelos de subjetivação que acentuam a “exterioridade” e “autocentramento”. Freud (1856-1939) dizia que, “o que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades representadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas com uma manifestação episódica. Quando qual que situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue.”

Quanto mais nos desviarmos do núcleo íntimo de nossos problemas, de nossas ansiedades e angústias que já se tornam insistentemente presentes em nosso psicológico, em nosso dia-a-dia, fugindo de nós mesmos e alienandos-nos em prazeres paliativos,  prolongaremos ainda mais o nosso sofrimento.     
                                                                                                            
* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.




sábado, 13 de julho de 2013

A CÉU ABERTO: VIDA SEM PRIVACIDADE


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O mundo atual demonstra demandar uma excessiva exposição da imagem pessoal das pessoas e, consequentemente, de uma não privacidade, permitida ou não pelos seus atores. Não restam dúvidas que parte dessa exposição tem um caráter preventivo contra os mais variados tipos de violência urbana, a saber, as câmeras que filmam o passo a passo das pessoas que transitam pelas ruas, nos supermercados, nos shoppings e em tantos outros lugares. Entretanto, está em voga o desejo narcísico de colocar a imagem pessoal em evidência, haja vista as exposições através das redes sociais e dos reality shows que invadem as telas das televisões do mundo inteiro. Neste caso, estamos falando de uma exposição que é objeto de prazer e que alimenta e expande o ego.

No que se refere aos reality shows a imagem está associada a um símbolo de sedução que busca envolver o telespectador ao personagem que é criado e representado pelo participante, afinal de contas este é o jogo a ser jogado por todos e esta é a finalidade do entretenimento.   

A exposição da imagem quando é intencional, como já mencionamos, alimenta e expande o ego, provocando um bem-estar narcísico no indivíduo. Mas, quando esta exposição com a quebra total de privacidade for em decorrência de um abandono social, que sentimento ou, melhor dizendo, quais sentimentos seriam experimentados por essa pessoa? É aqui que adentram os sujeitos que a sociedade mais do que designou de moradores de rua e que aqui, neste texto, estão sendo chamados por indivíduos que vivem a céu aberto e levam uma vida sem privacidade.

Categorizar um sentimento que parte de um sujeito que é um ser individual e por si só possui a inerência de uma subjetividade que é só sua, não nos move a determinar o que se passa no íntimo desse sujeito como se fosse cabível uma análise generalizada que viesse detectar a subjetividade de cada pessoa, pois cada indivíduo reage as mais diversas situações de sua maneira. No entanto, não fugiríamos muito desta realidade psíquica se disséssemos que cada indivíduo vivenciaria a sua maneira uma cadeia de sentimentos e representações que margearia o sentimento de inferioridade, de fracasso, de revolta, de abandono e de uma angustiante intrusão de todos em relação a ele e a sua imagem.

Ao contrário dos primeiros atores que mencionamos, o morador de rua experimentaria um empobrecimento de seu ego, podendo levá-lo a uma possível depressão no primeiro momento que se defrontasse com a realidade de viver na rua e de ter sua imagem exposta para todos e o pior, a todo instante. Ainda no primeiro momento, pressupondo que um dia o indivíduo teve casa, emprego e as condições financeiras necessárias para suprir o seu sustento e o de sua família, e subitamente se defronta com a nova realidade, esse indivíduo também vivenciará um sentimento de luto pela morte de sua vida anterior. Esse luto também se estenderia a sua própria pessoa, como sujeito que é alienado a uma severa cultura capitalista e preconceituosa que dita às regras de como se deve ser e viver.

            Sua imagem tornar-se-ia pública, no entanto, desfocada ao olhar do outro. Com o tempo, a vivência das ruas e a certeza do abandono vão sugando o sentimento que antes ele tinha de (se importar de ter sua imagem vista a todo instante) e o indivíduo sofreria um esvaziamento de seus preceitos. Essa exposição não mais o incomodaria ou, pelo menos, não o incomodaria tanto como antes. A valer tal condição, constata-se que houve duas mortes, a do morador de rua, que se anulou como pessoa, sendo subtraído em seus direitos, e a da sociedade, que fez morrer um cidadão.

Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia*

Artigo publicado no Jornal Diario de Pernambuco na edição de 16/08/2012.

Este artigo fez parte da prova de português do vestibular 2013 da Faculdade ASCES.


quinta-feira, 11 de julho de 2013

CONSUMO COMPULSIVO, UM CONSUMO PATOLÓGICO




* Por Jorge Roberto Fragoso Lins 

O consumo patológico, uma das modalidades inseridas nas categorias das adicções, é fruto de uma fragilidade do sujeito contemporâneo em seu imperativo egóico de defesa e da perversão econômica que o mesmo se submete, com o objetivo de tamponar suas angústias, ansiedades, enfim, seu mal-estar. A compreensão equivocada de uma gratificação emocional proporcionada pelo ato compulsivo leva o indivíduo a buscar a homeostase de sua tensão psíquica de forma exagerada como o consumo exacerbado, sem levar em conta o saldo bancário, o de se alimentar compulsivamente, o jogo, a dependência da internet, a pratica exagerada de atividades físicas ou a vigorexia, a obsessão pelo corpo esculturalmente perfeito e tantas outras práticas. Conforme Fromm (1977), essas práticas poderão ser compreendidas em uma única frase: “eu sou o que tenho e o que consumo”.

A sensação de satisfação de ter, mesmo que esta seja passageira, corrobora com o sentimento de consumir mais ainda. O consumo compulsivo ou patológico leva o indivíduo ao endividamento e muitas vezes a contrair empréstimos para sanar os gastos. No entanto, como o consumo é compulsivo, pois o que está em jogo é o mal-estar que se vive, logo se cai na tentação de novas compras e o endividamento aumenta, criando, assim, uma bola de neve que cada vez mais só tende a crescer. O individualismo que reina atualmente leva o sujeito a estar e viver solitariamente, buscando preencher esse vazio no consumismo e nas mais variadas dependências.

Conforme Marx, a relação de dominação e exploração existente entre patrão e empregado é encoberta pelo fetichismo da mercadoria no momento em que ela se apresenta – aparência – na relação de troca. Desde a época de Marx até os tempos atuais, o que se observa é que esse fetichismo que adorna as mercadorias toma uma importância bem maior do que a própria necessidade de se ter o objeto.

O conceito de consumo dado pela economia, restringi-se ao ato de comprar alguma mercadoria ou bem, visando a satisfação de determinada necessidade ou demanda. Consumir, contudo, não se resume só a essa concepção, pois atualmente o que mais se consume é a imagem que poderá ser de algum objeto, um objeto quase sempre de fetiche, e a imagem do outro, como forma de encontrar o significado da própria existência. Portanto, quando uma idéia ou alguma coisa é lançada através da imagem e da publicidade e que consegue produzir um forte apelo midiático a atingir o imaginário do sujeito, provocando um efeito que por analogia iremos compará-lo ao da letra quando cola no corpo – termo psicanalítico –, a imagem oferecida pelo objeto é incorporada pelo sujeito com o seguinte apelo: “você pode ter” ou então “o que você está esperando para ter?” Essa imagem pode ser, por exemplo, a de um carro perfeito para a família com um espaço amplo na mala ou de um carro esportivo admirado por homens e mulheres, uma jóia, uma viagem ou mesmo um corpo esculturalmente perfeito.

O esvaziamento do desejo produz apenas o efeito de significação e mostra o quanto o sujeito está desamparado de significantes que o nomeie como sujeito desejante, restando-lhe, apenas, o gozo imaginário que o outro oferece. Na significação, a imagem ocupa o lugar do ser (que é, de fato, um lugar vazio); do ponto de vista da constituição subjetiva. Se o ser produz uma ilusão de identidade quando o sujeito encontra a sua imagem, o ser se ancora na fortaleza narcísica da imagem do corpo.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo e pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise, graduando do 8º período de psicologia. 
  



domingo, 7 de julho de 2013

UMA BREVE LEITURA DO MUNDO CONTEMPORÂNEO


O mundo contemporâneo é, sobretudo, um mundo de eclosões tecnológicas que favorece a uma nova ótica de ver e experienciar a vida.  É uma era enigmática que rompeu drasticamente com o tradicional continuísmo cultural, estabelecendo outras normas de condutas antes desconhecidas ou pouquíssimas usuais. A isso, observamos que o mundo atual, provavelmente contrapondo-se aos excessos de autoritarismo existente nos séculos passados, com o apoio da tecnologia, vem promovendo uma revolução dos costumes que sinaliza para uma homogeneização das diferenças, ou seja, para um mundo com pouquíssima singularidade, onde se hasteia a bandeira do tudo pode; do viver para gozar, não importando por qual via seja; do consumismo desenfreado quase ensandecido e pelos frágeis vínculos relacionais que se rompem com um simples delete de e-mail. Cardoso (1996, p. 67), “sugere que as mudanças processadas no modo de vida do homem e na organização da sociedade constituem um marco delimitado de duas épocas, rompendo com a ética e os valores antes professados”.

            No entanto, pelo entendimento de Da Point (2001),


vivemos em uma sociedade sem herança, de indivíduos órfãos de ideais e de verdades simbólicas que correm atrás da sedução das imagens que lhes são impostas de inúmeros modos. Na falta de identificações tentam arrumar uma identidade que lhes permita viver os instantes, identidades adotadas sem firmeza alguma, pois o mundo de hoje exige volatilidade, mudanças, trocas, descartabilidade. (DA POINT, 2001, p. 12)


            A impressão que fica diante de toda essa volatilidade é de que tudo que acontece está sobre uma espécie de plataforma giratória que se movimenta sobre um ângulo de 180º e de forma contínua e acelerada, provocando situações novas e surpreendentes de uma constante construção do comportamento e das relações humanas, sendo que, de uma forma bastante peculiar a esse sujeito. A isso, Bauman (2001) propõe a metáfora da liquidez, que para ele, descreveria bem a sociedade atual. Para o sociólogo, esta sociedade caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma, ou seja, as referências, estilo de vida, crenças, convicções e as próprias instituições estão mudando de forma tão rápida que não estaria dando tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades.  “Os sólidos suprimem o tempo; para os líquidos, ao contrário, o tempo é que importa” (BAUMAN, 2001, p.8). Conforme Levy, que faz uma leitura psicanalítica sobre os fenômenos sociais,


a transposição da psicanálise para o campo social está baseada na existência de uma memória, de um imaginário, de emoções coletivas que impregnam, conscientemente ou não, a psicologia dos indivíduos, e impõe sua lógica própria aos processos organizacionais e grupais. Sob esse aspecto, os ‘fatos sociais’ podem ser objeto de processos de recalcamento, de esquecimento e, pois, de um trabalho de desenvolvimento ou de análise. Mas essa lógica não é única; o campo social comporta suas próprias regras, suas próprias leis, estudadas por outras disciplinas, que a psicanálise não pode ignorar ou subestimar (LEVY, 2001, p. 44).


            Freud (1856-1939) em muitos de seus escritos menciona o elo existente entre a cultura e o inconsciente. Lacan (1958) ao fazer a releitura dos textos de Freud, introduziu o conceito do Outro, delimitando o campo do simbólico e do significante, afirmando que o inconsciente é o discurso do Outro.

            Quando Lacan enuncia que o inconsciente é o discurso do Outro, ele quer dizer que ele só se reveste nesse sentido na medida em que for remetido a outro significante, mas para isso é necessário que o sujeito faça parte da linguagem. Como o significante é um sinal, ele poderá ser um sinal de ausência, mas de ausência do Outro. Então, para que o indivíduo esteja estruturado pela lógica dos significantes, ele deverá estar inserido no simbólico, onde as palavras estão pelas coisas. Nesse sentido, destacaríamos as dimensões dos três registros, a saber, o imaginário, o simbólico e o real que ao se articularem construirão o nó borromeu.

            Quando nos reportamos ao discurso do outro não podemos deixar de salientar que o princípio da alteridade parte do pressuposto que é mediante o contato com o Outro que existirá o “eu-individual, possuidor de uma singularidade própria. É a concepção de que todo homem social interage e interdepende de outros, ou seja, é um ser que pertencente ao social, interage e depende de seu meio para viver.

            No entanto, o que se observa é uma forte inclinação para o individualismo e o egocentrismo que, por sua vez, contribui na formação de indivíduos solitários e descompromissados de vínculos afetivos mais consistentes. De acordo com o pensamento de Birman (2003, p. 168), o que distingue a pós-modernidade é, sobretudo, a cultura do narcisismo e do espetáculo, na qual o individualismo e o autocentramento do sujeito tomam enormes proporções. Conforme o autor, “o indivíduo da atualidade procura a exaltação do eu e, utiliza-se de todo e qualquer modo de aparecer no cenário social seja através da estetização de sua aparência, ou do uso do Outro como fonte do próprio prazer” (Ibid., p. 246).

            O virtual é a maneira mais prática e cômoda de se relacionar e de se buscar prazer. É um não querer se dispor aos conflitos e as diferenças existentes numa relação compartilhada online; é buscar o anonimato para ser outra pessoa ou para realizar fantasias, muitas, pervertidas; é conhecer todas as pessoas do mundo e ao mesmo tempo não conhecer ninguém; é reviver um antigo costume da infância e adolescência de escrever experiências cotidianas no diário, agora através das redes sociais, e tantas outras coisas que sujeito contemporâneo busca fazer apenas na companhia solitária de seu computador. Que fique claro que, o que estamos  frisando é a utilização do virtual de forma equivocada e destorcida, e não seu uso sadio que se coloca como uma importante ferramenta para inúmeras finalidades, haja vista a internet.

            O virtual parece ser apenas parte de um grande novelo que demandaria outros aspectos, como o da cultura e da personalidade desse novo sujeito. Grosso modo, parece que o sujeito contemporâneo tenta com suas ações tamponar alguma falta; já, outros, buscam e só o além do princípio do prazer. Entretanto, ambos, por motivos e sentidos pertinentes às suas particularidades, estão experienciando cada vez mais e da forma que lhe convêm, o gozo. O sujeito contemporâneo é sem sombras de dúvidas muito pulsional e “irá se definir pelo real do corpo, da genética, dos psicofármacos, do sexo, da beleza, da velhice” (DA POINT, 2001, p. 14).  

Vive-se em um mundo que não se admite a menor angústia, o menor sofrimento, a menor tristeza que logo se busca o fim do mal-estar através da química. A cultura atual dentre outras coisas posiciona-se contra a qualquer tipo de mal-estar, o que nos deixa intrigado se isso de fato é possível e nos reporta a dois questionamentos: que tipo de estrutura psíquica é essa que não suporta a mínima angústia, a mínima tristeza, o mínimo mal-estar que logo parte para a medicalização? Que sujeito é esse que não suporta sofrer? Que indivíduo é esse que para se livrar de algum mal-estar recorre as mais variadas dependências que, pelas repetições, tornam-se compulsivas? Afinal de contas, o mal-estar representa fator constitutivo do sujeito, pois significa algo de sua realidade e pelo que se parece, deseja-se a todo custo fugir de qualquer realidade que traga infortúnios. Segundo Melman (1992, p. 141), “as coisas começam a ir mal quando há um movimento de ideias, de modificações éticas que começam a dizer que o mal-estar não é um bem”. A isso, leva-nos depreender que o sujeito contemporâneo não busca se conhecer em sua integralidade, corpo e mente. Isto, porque é preferível a fuga ao doloroso embate de se reconhecer no sujeito do inconsciente, onde serão reveladas suas verdades, retendo-se, assim, apenas a subserviência de seu discurso consciente que é muito mais prazeroso.

            O consumo apresenta-se como um dos grandes imperativos desse novo tempo, ou seja, como um fenômeno que representa a lógica do moderno hedonismo, a saber, a busca incessante do prazer. Debord (2006, p. 45) faz um neologismo interessante entre o consumo e a dita por ele “sociedade do espetáculo”. O autor menciona um mundo regido pela economia do consumo, tendo a mercadoria como centro absoluto da vida social, gerando a passagem do ser para o ter. Os objetos substituiriam os valores éticos, onde ocorre uma ininterrupta fabricação de “pseudo-necessidades”. O filósofo demarca a contemporaneidade centrando o triunfo do individualismo em associação ao consumo e como demanda incessante de prazer, criando modelos de subjetivação que acentuam a “exterioridade” e “autocentramento” (p.108).

            O pensar de Debord só corrobora com o que se observa na realidade, um consumo desenfreado que objetiva uma busca voraz pela satisfação do que pelo que de fato é desejado, uma vez satisfeito em sua demanda, logo se projeta a substituição por outro desejo. Em suma, para que se possa sentir a prolongação de uma satisfação, consome mais e mais. Portanto, estamos falando do mesmo mecanismo existente na dependência das drogas, ou seja, da repetição, da compulsão. 

            Recorrendo a psicanálise, Freud dizia que,


O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades representadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas com uma manifestação episódica. Quando qual que situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue (FREUD, 1974, p. 95).


            Portanto, é por ter um sentimento de contentamento muito tênue que logo é dissipado, que o sujeito correrá atrás de repetir a ou as experiências que o levaram a satisfação ou, mesmo, partir para outras, já que uma compulsão poderá motivar o surgimento de outras em uma sistemática migratória que favoreça a manutenção da satisfação, ou melhor, dizendo, do gozo, a saber, recorrendo ao consumo das drogas lícitas como as bebidas alcoólicas, extremamente propagadas mela mídia, ou das drogas ilícitas como a maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy, LSD e tantas outras. 

            Farah (2002, p. 41) assinala uma completa inversão na atualidade do que preconizou Freud sobre a noção de felicidade efêmera:


[...] o sujeito hoje não hesita em trocar segurança por felicidade imediata. Com a depreciação da história e ênfase no presente, a satisfação não pode ser depositada no futuro. Tem que ser consumida instantaneamente. A passagem da sociedade moderna pode ser entendida a partir do deslocamento sugerido por Zygmunt Bauman: a passagem da ética do trabalho para a estética do consumo.


            Diante de tudo que foi exposto fica patente à pressa que o sujeito contemporâneo tem em querer se satisfazer, não importando como, e também que o móbil muitas vezes é pela via do devaneio ou da fantasia, colocando-se em um lugar de extrema supremacia narcísica. A satisfação poderá ocorrer única e exclusivamente pela solidão de seu imaginário, através, por exemplo, numa sala de bate-papo, em um cybersexo, nos jogos, leilões e em toda forma de consumo. 

            Outro aspecto imperativo nos dias atuais é o da evitação a qualquer tipo de sofrimento, seja ele qual for, e para isso, o melhor caminho a ser tomado é o de recorrer à química. Quando, não, busca-se eliminar o mal-estar através de uma satisfação imediata, pois o sujeito contemporâneo age levado pelo imediatismo das coisas, procurando, então, um meio, um escape para sua tensão.

            A isso, observa-se que a instância proibitiva representada pelo supereu que deveria internalizar a cultura e as leis, legitimando, assim, sua função de censura. Hoje, parece estar em forte decadência ou a serviço das pulsões. Provavelmente, em decorrência pelo declínio social da imago paterna. A exigência de satisfazer as pulsões é o que prevalece no mundo contemporâneo, mesmo que para isso se chegue ao adoecimento das compulsões severas, quer através da química ou não. Abre-se, então, as portas para as novas compulsões, compreendidas como adicção. A palavra “adicção” tem sua origem etimológica no antigo Império Romano, conforme apontam alguns antropólogos e historiadores. Adicção, na lei Romana, segundo a enciclopédia francesa do século XVIII de Diderot e D’ Alembert, “é a ação de fazer passar ou de transferir bens a um outro, seja por sentença de uma corte, seja por via de venda àquele que oferece mais”(DIDEROT; D’ALEMBERT, 1751/1988, p. 128).
                       


quinta-feira, 4 de julho de 2013

O ESTÁDIO DO ESPELHO COMO FORMADOR DA FUNÇÃO DO EU


Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_do_espelho


Por Jorge Roberto Fragoso Lins *

O estádio do espelho foi uma analogia empregada por Lacan referente ao “olhar da mãe” em relação ao seu bebê. A metáfora é aplicada em crianças entre 6 e 18 meses de idade e é através da via imaginária de si mesma que a criança aos poucos vai adquirindo uma imagem totalizadora do seu corpo, através do olhar da mãe – pulsão escópica – que funciona como um espelho para ela, imagem especular.

A via imaginária também se estende a mãe, pois não se trata apenas da imagem de um corpo real que a mãe vê, mas da imagem da imagem, ou seja, da imagem que a mãe tem do corpo dessa criança. O olhar da mãe deverá exprimir desejo, ternura e amor, e a vocalização – pulsão invocante – do que é dito desse corpo, desse bebê, deverá estar em perfeita sincronia com esse olhar. Segundo Violante (2010), no registro do processo primário, a zona auditiva obedece ao mesmo tempo modo de funcionamento de qualquer outra zona erógena. O ouvido, assim como outras zonas erógenas, recebe as informações que são metabolizadas pela psique e produz o prazer no encontro objeto-zona complementar. Portanto, fica claro pelo entendimento de Lacan (1953-1954) que, o Eu é referente ao outro e se constitui em relação a ele, numa experiência de linguagem que é mediada pela palavra.

A criança nessa fase possui uma percepção parcial, fragmentada de si mesma, ocorrendo a aquisição de sua imagem totalizadora antes mesmo de sua própria maturação biológica.

Na medida em que a mãe olha e vê a criança como um todo, como um inteiro, a criança se reconhece nesse olhar, estabelecendo sua primeira identificação, ou seja, a identificação primária, o Eu Ideal, sua primeira identificação subjetiva. Esse campo da imagem é relativo ao narcisismo primário.  

Lacan instituiu três tempos para que ocorresse a identificação subjetiva. No primeiro tempo, a criança percebe a imagem de seu corpo como um outro real, ou seja, a criança se sentiria confusa entre si mesma e o outro. No segundo tempo, a criança descobre que o outro que aparece no espelho não é real, mas uma imagem. Porém, ainda não percebe que é sua própria imagem. No terceiro tempo, a criança já tem a convicção de que a imagem que aparece no espelho é de fato a sua, a imagem do seu corpo por inteiro, estruturante para sua identidade: Eu Ideal. Portanto, o “Eu Ideal” é da ordem de uma dimensão imaginária da estrutura subjetiva, implicando um desconhecimento e a alienação de si, do Eu.

Segundo Aulagnier (1975) por Violante, “desde a entrada em funcionamento do processo originário até o funcionamento do processo secundário, a função pensante já se faz presente, porém com características próprias – pensamentos – idéias cuja lógica difere daquela imposta pelo Eu. Segundo a autora, antes do advento do Eu, a criança já faz uso da palavra, e indaga-se quais seriam a natureza e o alcance lógico da palavra no processo primário. Sua hipótese é a de que há uma etapa de transição entre os dois processos, primário e secundário, a qual ele denominou primário-secundário; nessa etapa, a imagem de palavra está coexistindo com a imagem de coisa. Em outros termos, no primário, a imagem de palavra está presente não como signo linguístico, mas somente como significações submetidas à lógica da onipotência do desejo do Outro – as significações primárias”.  

O que ocorre no estádio do espelho é por fim à angústia de um corpo fragmentado dando início a uma dialética mediada pela linguagem, promovendo, assim, a primeira identificação com o outro. Esse processo insere a linguagem fundando o simbólico na subjetividade da criança. Lacan, ao inserir o conceito de linguagem à teoria de Freud, diz que a linguagem compreende uma rede que envolve o indivíduo, estando presente sempre, mesmo antes de seu nascimento, regulamentando as relações, pensamentos e a própria existência, ou seja, o sujeito é assujeitado pela linguagem pela via da alienação com o Grande Outro, através de seu significante mestre, significante do gozo fálico que inscreve a lógica da significação fálica.  

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.