sexta-feira, 19 de julho de 2013

A DROGA CIBERNÉTICA

Fonte: http://www.culturamix.com/tecnologia/como-funciona-a-dependencia-de-computador

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Desde a chegada do primeiro computador no Brasil, um Univac-120, da Sperry, importado pelo Governo de São Paulo no ano de 1957, que ocupou um andar inteiro do prédio onde foi instalado, até os dias atuais com os preciosos e versáteis microcomputadores, notebooks, tablets, apples e a somar a esse mundo digital, a internet, o nosso país adentrou no que antes era considerado, apenas, o futuro de uma Era tecnológica. Ao ingressar nesse mundo tecnológico, o Brasil absorveu uma cultura globalizante que se chama Cultura Cibernética, que igual a qualquer outra cultura possui suas peculiaridades.

Cada vez mais todas essas ferramentas vêm ocupando um importante espaço no cotidiano das pessoas, seja em passar um e-mail, fazer alguma pesquisa, realizar alguma compra, verificar um extrato bancário, ler um noticiário, enfim, sejam quais forem os nossos hábitos já estão atrelados à cultura cibernética. O móbil de todas essas ferramentas tem como propósito facilitar as nossas vidas nos mais variados setores. Entretanto, como tudo na vida requer sensatez e equilíbrio, o uso abusivo e frenético de tais ferramentas irá sinalizar uma sintomatologia patológica ou, seja, uma compulsão por jogos e pela própria internet.

Tanto para a psiquiatria como para a psicologia e psicanálise a dependência da internet (DI) é um conceito recente e que é caracterizado pela incapacidade de controlar o próprio uso da Internet, sobretudo, o de ficar uma grande quantidade de horas jogando pelo computador. Essa prática ocasiona um intenso sofrimento psíquico para a pessoa e somado a isso, vários outros prejuízos significativos na vida do indivíduo.

Os chamados jogos interativos que são mais procurados por crianças, adolescentes e jovens adultos já contam com mais de 11 milhões de jogadores inscritos em todo o mundo, como é o caso do World of Warcraf, segundo a PTGamers. Essas pessoas de tão fissuradas que estão nos jogos passam horas e mais horas em frente ao computador, alheios a realidade, esquecidos de suas próprias necessidades básicas, como comer e dormir. Quando se alimentam, comem sem sair de perto do computador e muitas vezes veem o dia amanhecer e só assim, vencidos pelo cansaço, é que se entregam ao sono, mas assim que se acordam voltam à mesma rotina. Pais e cuidadores atentem-se, pois estamos falando de uma dependência tão perigosa quanto à dependência química, segundo constataram os psicólogos da Interdisciplinary Addiction Research Group, na Charité University Hospital Berlin, na Alemanha. Os resultados do estudo realizado indicou que os mecanismos de dependência dos jogos de computador no cérebro são semelhantes aos provocados pelo vício de drogas, como o álcool. A partir do resultado encontrado, diversas clínicas foram abertas visando o tratamento desses dependentes.

Na China, por exemplo, já se contabilizam 2 milhões de jovens dependentes, segundo pesquisa promovida pela Liga da Juventude Comunista. Nos anos de 2006 a 2007, o Hospital das Clínicas (HC), de São Paulo, o primeiro a tratar de adolescentes e adultos dependentes de internet, constatou que em relação aos adolescentes o foco do problema está entre 12 a 17 anos de idade.

As compulsões ou comportamentos compulsivos ou aditivos que são gerados pela dependência, são hábitos aprendidos (internalizados) e seguidos por alguma gratificação emocional, geralmente objetivando um alívio de ansiedade ou de angústia. Tais comportamentos são ações que foram executadas inúmeras vezes e acontecem quase automaticamente. A gratificação que se segue ao ato, seja ela o prazer ou alívio do desprazer, reforça a pessoa a repeti-lo, mas, com o tempo, depois desse alívio imediato, segue-se uma sensação negativa por não ter resistido ao impulso de realizá-lo. Mesmo assim, a gratificação inicial (o reforço positivo) permanece mais forte, levando a repetição. Chegará um momento em que mesmo que a pessoa não queira acessar a internet ou jogar, uma pressão da ordem do pulsional (de algo que é muito intenso), da satisfação imediata, do prazer, irá obrigá-la a se conectar a rede ou jogar.

A pessoa sofre porque, apesar do objetivo de aliviar as tensões emocionais, não existirá um bem estar mental. A isto, mesmo sendo a pulsão da ordem da satisfação, a tensão psíquica proveniente da ansiedade ou angústia terá um quantitativo maior do que a esperada satisfação, promovendo, então, o sofrimento psíquico do indivíduo. Segundo Lacan (1901-1981), a angústia estaria relacionada com a questão da falta. Portanto, a angústia nada mais é do que uma sinalização dessa falta que emerge e deixa a pessoa no vazio, um vazio existencial.

Antigas e saudáveis brincadeiras que exigiam espaço, movimentação e que também serviam para o desenvolvimento da psicomotricidade e dos laços relacionais das crianças ficaram para trás, dando lugar há horas a fio de frente a um monitor teclando num sei lá o quê. É de salientar que as crianças que se encontram no extremo da anormalidade se apresentam hiperexcitadas, rebeldes, ansiosas, isoladas, alienadas ou extremamente consumistas. Crianças, adolescentes e adultos poderão deixar o contato com seus familiares e amigos ou, então, tê-los apenas pela rede, confinando-se ao seu quarto e elegendo como seu principal companheiro o seu computador. Esse isolamento no futuro poderá também levar a depressão e o agravamento do quadro. Quais implicações terão essas inovações tecnológicas para a formação das subjetividades dos chamados neo-sujeitos? A isto só Deus sabe ou a sociedade no futuro.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

A MEMÓRIA E SUAS REDES

Fonte: http://super.abril.com.br/blogs/como-pessoas-funcionam/pesquisa-lanca-luz-sobre-como-a-memoria-funciona/

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

A memória está inclusa em todas as atividades do reino animal, sobretudo, no reino hominal com uma especialidade maior neste reino, o de possuir um sistema cerebral mais requintado e complexo que permite que o indivíduo utilize de uma lógica mais enriquecida em seu pensar. A memória está inserida desde as mais simples e involuntárias funções às mais complexas.  A memória está inserida no desenvolvimento de nossas habilidades, no reconhecimento das informações sensitivas e sensoriais provenientes da visão, audição, olfação, gosto, e tato. A memória também registra respostas de nosso mundo interno e do ambiente que nos rodeia – externo –, a nossa comunicação necessita da memória, auxiliando-nos no armazenamento das palavras e de seus significados e sentidos, e tantos outros aspectos. Mas para isso, a memória utiliza-se de algumas interfaces que agem como facilitadores da armazenagem mnêmica e que prestam um valioso papel de organização e de interligação de conteúdos. Essas interfaces ou ferramentas são denominadas de Esquema, Redes Semânticas e Redes Conexionistas. Todo e qualquer conhecimento é representado e organizado através dessas ferramentas.  

A primeira consiste em um conjunto organizado de conhecimentos a respeito de um objeto em particular ou evento abstraído de experiência anterior. O armazenamento nesse processo contará com uma idéia pré-estabelecida de um conjunto de informações que colaboram na formação de um contexto de absorção mnêmica. Esse tipo de processo poderá acarretar falhas em toda cadeia perceptiva, afetando a atenção seletiva, o armazenamento e conseguintemente a recordação do conteúdo, pois a percepção estaria comprometida pelo conjunto de informação que já se encontrava organizado a respeito do objeto ou evento absorvido de uma experiência anterior. Objetos ou eventos não existentes poderiam se fazer presentes por causa de um contexto pré-estabelecido na cabeça da pessoa. Ou seja, a memória poderia ser enganada por um cenário representativo que se formou de um determinado ambiente.

A segunda (Redes Semânticas) consiste em pontos que representam conceitos interligados. O processo aqui empregado é o associativo. Uma palavra ou coisa faria o papel de lembrar um conteúdo mnêmico armazenado. Entretanto para que isso ocorrer é necessário que essa associação possua pertinência, ou seja, uma aproximação do que está pretendendo invocar através dos intercâmbios associativos, como por exemplo, a cor vermelha poderia ser associada ao sangue que circula na veia, e feita essa associação, o sujeito facilmente lembraria de que havia prometido para si mesmo que assim que saísse de casa iria doar seu sangue no Hemope.    

A terceira (Redes Conexionistas) são os modelos conexionistas ou de Processamentos Distribuídos em Paralelo (PDP). Presumem que os processos cognitivos dependem de padrões de ativação em redes computacionais altamente interconectadas que se parecem com as redes neurais. Os conteúdos mnêmicos são distribuídos por todo um complexo de redes de armazenamentos, possuindo um determinado setor para absorver esse ou aquele conteúdo. Entretanto, como o próprio nome diz, existem as conexões setoriais que favorecerão o intercâmbio entre eles, auxiliando o estimulo de invocação de um conteúdo mnêmico que esteja em outro setor ou unidade da rede. Mas também, em razão disso, os conteúdos específicos de uma unidade só poderão ser ativados por estímulos específicos que correspondam aos padrões daquela unidade. 

*Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

UMA SÍNTESE DA PSICOLOGIA EVOLUTIVA


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O presente artigo não tem como objetivo privilegiar qualquer tipo de abordagem teórica a respeito do desenvolvimento humano, nem, tampouco, estender-se a todas elas, mas, apenas, mostrar que, em termo de Ciência, jamais poderemos eleger como verdade absoluta uma teoria, mesmo que seja revestida de um corpo extremamente coerente em seus fundamentos, sobrepondo a quais quer retificações ou, mesmo, considerando a hipótese de seu abandono por outra teoria que possua um lastro maior de respostas que se apliquem, melhor, ao momento vivido pelo ser humano.  Nesta busca pela verdade científica e pelas muitas perguntas ainda sem respostas, citaremos dois pronunciamentos de um dos mais renomados e importantes cientistas dos últimos tempos, Albert Einstein.


“A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, incapaz de sentir admiração e estupefação, esse já está, por assim dizer, morto e tem os olhos extintos”.

“Nós, cientistas, acreditamos que o que nós e nossos semelhantes fizermos ou deixarmos de fazer nos próximos anos determinará o destino de nossa civilização. E consideramos nossa tarefa explicar incansavelmente essa verdade, ajudar as pessoas a perceber tudo o que está em jogo, e trabalhar, não para contemporizar, mas para aumentar o entendimento e conseguir, finalmente, a harmonia entre os povos e nações de diferentes pontos de vista”.


O Desenvolvimento Humano é constituído por um universo complexo de acontecimentos e fenômenos que estão sempre evoluindo e, por conseqüência jamais terá, por parte de seus pesquisadores, uma resposta conclusiva para muitas das perguntas referentes ao seu encadeamento evolutivo. Categoricamente, sabemos que nada acontece do nada e tudo, na vida, é reflexo de um processo de maturação, desenvolvimento e juntamente com o de evolução, o de transformação, isto, em todos os aspectos e perspectivas da vida.  O Homem, como também toda a espécie vivente que possui um organismo complexo ou chegando a isso, são partícipes de um processo que enfoca um encadeamento evolutivo, constituído por ciclos que determinariam a evolução de cada espécie, assim atestava Chales Darwin. Entretanto, o surgimento de estruturas complexas só ocorreriam, passo a passo, em processos lentos.  

É importante frisar que a Evolução antes de tudo é um conjunto de acontecimentos  que obedece a uma ordenação estrutural e que irá demandar os ciclos evolutivos de cada espécie, dando-se de forma lenta e gradual, mas que, para isso, necessita de muitas ferramentas, e sobremaneira, quando nos referimos ao desenvolvimento do Homem. A Psicologia Evolutiva, sendo uma das vertentes científicas que estuda esse desenvolvimento vem contribuindo, significativamente, para o desbravamento desse saber, que representa o Desenvolvimento do Homem, incumbida de estudar as mudanças relacionadas aos processos de desenvolvimento das pessoas, a seus processos e crescimento e a suas experiências vitais significativas, dentro de um universo de fatores preponderantes na vida da pessoa, como:


1) a etapa da vida em que ela se encontra;
2) as circunstâncias culturais, históricas e sociais que se apresentam na vida da pessoa e
3) as experiências vividas por cada um. No primeiro enfoque, verifica-se que episódios que sejam inerentes a uma determinada época na vida de uma pessoa, como por exemplo, a adolescência, ou mesmo a velhice, poderão ter agrupamentos de acontecimentos que possua certa homogeneidade entre esses dois grupos, logicamente, não descartando a importância dos demais aspectos que são representativos e significativos para cada indivíduo.


No que se refere aos aspectos culturais, históricos e sociais, representam incrementos que irão construir uma homogeneidade entre aqueles que vivem e participam desse mesmo universo, e tais referências serão novamente absorvidas pelos descendentes, mesmo que, novas referências venham a surgir no transcurso do tempo e também sejam agregadas por aquele grupo ou por parte dele. E no último ponto, encontramos os fatores idiossincráticos, que significa que mesmo uma pessoa recebendo todas as influências de seu meio e vivenciando épocas semelhantes com outros sujeitos, suas experiências e seu desenvolvimento psicológico farão dele um sujeito ímpar, ou seja, um sujeito individualizado com personalidade própria e tendo o seu desenvolvimento, também, peculiar aos seus experimentos.

A Psicologia Evolutiva ao estudar todas as etapas do desenvolvimento humano, da infância à velhice, introduz para a sociedade o conhecimento que em cada ciclo, entre perdas e ganhos, existe um desenvolvimento que só se encera com a morte. Portanto, todos nós estamos absorvendo algo em alguma etapa de nossas vidas e que nos será útil, contribuindo, assim, para o nosso bem-estar.   

Segundo um dos pais do empirismo, J. Locke (1632-1704), “a mente humana pode ser comparada, no momento do nascimento, a um quadro em branco, a uma tábua rasa, e a experiência adquirida por ela seria fruto do contato com o meio e da estimulação que recebe, isto determinaria a todo o momento os conteúdos do psiquismo. Pela teoria de J. Locke, não há nada na inteligência que não tenha passado antes pelos sentidos. Mas, em contrapartida, segundo Jean Piaget, ao nascer, os recém-nascidos  possuem padrões motores não aprendidos para comportamentos como mamar, agarrar e mover suas extremidades. Mas não sabem de que modo seus comportamentos se relacionam com o mundo exterior.

Hipoteticamente, poderíamos questionar que tais padrões motores resultariam de algo inato, algo que esteja relacionado ao instinto de sobrevivência? Caso enveredemos por tal caminho seria dizer que a criança recém-nascida não é um quadro totalmente em branco, algum conteúdo inato existe nela e que obedeceria, talvez, a herança de espécies inferiores ao Homem, mas, caso seja isso, consagraríamos a teoria da lei de evolução de Darwin como verdade absoluta, tendo também como averbação de tal teoria o fato de que todo feto, no começo de seu desenvolvimento, possui uma calda, que com o passar do tempo desaparece.
O filósofo Rousseau (iluminista) asseverava que determinadas características seriam inatas ao ser humano, como por exemplo, a bondade natural da criança, e destaca uma divisão da infância em estágios, cada um dos quais apresentando suas características próprias, exigindo um tratamento educacional diferenciado; já, Kant, também iluminista, referia-se a existência de categorias inatas de pensamento.

Esses pensamentos fazem partes dos modelos organicistas. Agora, observaremos os modelos mecanicistas, que colocam a história psicológica de uma pessoa ligada a aquilo que ela aprende e o mesmo ocorrendo em espécies inferiores, portanto, limita-se a trabalhar com aquilo que pode ser definido em termos operacionais e que é possível de ser medido e quantificado, abolindo por completo qualquer pensamento ligado ao modelo organicista. Gostaria de lembrar o caráter teleonômico do desenvolvimento, expressão dada pelo modelo organicista, com a qual se faz referência à ideia de que o processo evolutivo é um caminho orientado a se atingir uma determinada meta, considera algo semelhante ao ápice do desenvolvimento. O que também implica em dizer que os fatores que ocorrem na infância serão importantíssimos no transcurso da vida do sujeito até a sua velhice, algo bastante sensato e real. Autores ilustres como Freud e Piaget são grandes defensores deste pondo de vista.

Existem, ainda, teorias que defendem que o desenvolvimento psicológico não ocorreria de qualquer maneira, que não seria um processo independente que cada indivíduo vivenciasse de maneira completamente diferente do outro, existindo, sim, um processo de desenvolvimento de nossa espécie, mas que estaria completamente desligado a qualquer teoria que se parecesse com a de Darwin.  As teorias foram se dando até que chegasse ao pensamento contemporâneo do ciclo vital, onde múltiplos aspectos são tomados como fundamentais e significativos para o desenvolvimento de uma pessoa. Fatores como ambientais, culturais, históricos, biológicos, sociais e psicológicos são extremamente importantes para a harmonia desse universo chamado: Desenvolvimento Humano.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise, graduando do 8º período de psicologia.



    






sábado, 13 de julho de 2013

A CÉU ABERTO: VIDA SEM PRIVACIDADE


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O mundo atual demonstra demandar uma excessiva exposição da imagem pessoal das pessoas e, consequentemente, de uma não privacidade, permitida ou não pelos seus atores. Não restam dúvidas que parte dessa exposição tem um caráter preventivo contra os mais variados tipos de violência urbana, a saber, as câmeras que filmam o passo a passo das pessoas que transitam pelas ruas, nos supermercados, nos shoppings e em tantos outros lugares. Entretanto, está em voga o desejo narcísico de colocar a imagem pessoal em evidência, haja vista as exposições através das redes sociais e dos reality shows que invadem as telas das televisões do mundo inteiro. Neste caso, estamos falando de uma exposição que é objeto de prazer e que alimenta e expande o ego.

No que se refere aos reality shows a imagem está associada a um símbolo de sedução que busca envolver o telespectador ao personagem que é criado e representado pelo participante, afinal de contas este é o jogo a ser jogado por todos e esta é a finalidade do entretenimento.   

A exposição da imagem quando é intencional, como já mencionamos, alimenta e expande o ego, provocando um bem-estar narcísico no indivíduo. Mas, quando esta exposição com a quebra total de privacidade for em decorrência de um abandono social, que sentimento ou, melhor dizendo, quais sentimentos seriam experimentados por essa pessoa? É aqui que adentram os sujeitos que a sociedade mais do que designou de moradores de rua e que aqui, neste texto, estão sendo chamados por indivíduos que vivem a céu aberto e levam uma vida sem privacidade.

Categorizar um sentimento que parte de um sujeito que é um ser individual e por si só possui a inerência de uma subjetividade que é só sua, não nos move a determinar o que se passa no íntimo desse sujeito como se fosse cabível uma análise generalizada que viesse detectar a subjetividade de cada pessoa, pois cada indivíduo reage as mais diversas situações de sua maneira. No entanto, não fugiríamos muito desta realidade psíquica se disséssemos que cada indivíduo vivenciaria a sua maneira uma cadeia de sentimentos e representações que margearia o sentimento de inferioridade, de fracasso, de revolta, de abandono e de uma angustiante intrusão de todos em relação a ele e a sua imagem.

Ao contrário dos primeiros atores que mencionamos, o morador de rua experimentaria um empobrecimento de seu ego, podendo levá-lo a uma possível depressão no primeiro momento que se defrontasse com a realidade de viver na rua e de ter sua imagem exposta para todos e o pior, a todo instante. Ainda no primeiro momento, pressupondo que um dia o indivíduo teve casa, emprego e as condições financeiras necessárias para suprir o seu sustento e o de sua família, e subitamente se defronta com a nova realidade, esse indivíduo também vivenciará um sentimento de luto pela morte de sua vida anterior. Esse luto também se estenderia a sua própria pessoa, como sujeito que é alienado a uma severa cultura capitalista e preconceituosa que dita às regras de como se deve ser e viver.

            Sua imagem tornar-se-ia pública, no entanto, desfocada ao olhar do outro. Com o tempo, a vivência das ruas e a certeza do abandono vão sugando o sentimento que antes ele tinha de (se importar de ter sua imagem vista a todo instante) e o indivíduo sofreria um esvaziamento de seus preceitos. Essa exposição não mais o incomodaria ou, pelo menos, não o incomodaria tanto como antes. A valer tal condição, constata-se que houve duas mortes, a do morador de rua, que se anulou como pessoa, sendo subtraído em seus direitos, e a da sociedade, que fez morrer um cidadão.

Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia*

Artigo publicado no Jornal Diario de Pernambuco na edição de 16/08/2012.

Este artigo fez parte da prova de português do vestibular 2013 da Faculdade ASCES.


quinta-feira, 11 de julho de 2013

CONSUMO COMPULSIVO, UM CONSUMO PATOLÓGICO




* Por Jorge Roberto Fragoso Lins 

O consumo patológico, uma das modalidades inseridas nas categorias das adicções, é fruto de uma fragilidade do sujeito contemporâneo em seu imperativo egóico de defesa e da perversão econômica que o mesmo se submete, com o objetivo de tamponar suas angústias, ansiedades, enfim, seu mal-estar. A compreensão equivocada de uma gratificação emocional proporcionada pelo ato compulsivo leva o indivíduo a buscar a homeostase de sua tensão psíquica de forma exagerada como o consumo exacerbado, sem levar em conta o saldo bancário, o de se alimentar compulsivamente, o jogo, a dependência da internet, a pratica exagerada de atividades físicas ou a vigorexia, a obsessão pelo corpo esculturalmente perfeito e tantas outras práticas. Conforme Fromm (1977), essas práticas poderão ser compreendidas em uma única frase: “eu sou o que tenho e o que consumo”.

A sensação de satisfação de ter, mesmo que esta seja passageira, corrobora com o sentimento de consumir mais ainda. O consumo compulsivo ou patológico leva o indivíduo ao endividamento e muitas vezes a contrair empréstimos para sanar os gastos. No entanto, como o consumo é compulsivo, pois o que está em jogo é o mal-estar que se vive, logo se cai na tentação de novas compras e o endividamento aumenta, criando, assim, uma bola de neve que cada vez mais só tende a crescer. O individualismo que reina atualmente leva o sujeito a estar e viver solitariamente, buscando preencher esse vazio no consumismo e nas mais variadas dependências.

Conforme Marx, a relação de dominação e exploração existente entre patrão e empregado é encoberta pelo fetichismo da mercadoria no momento em que ela se apresenta – aparência – na relação de troca. Desde a época de Marx até os tempos atuais, o que se observa é que esse fetichismo que adorna as mercadorias toma uma importância bem maior do que a própria necessidade de se ter o objeto.

O conceito de consumo dado pela economia, restringi-se ao ato de comprar alguma mercadoria ou bem, visando a satisfação de determinada necessidade ou demanda. Consumir, contudo, não se resume só a essa concepção, pois atualmente o que mais se consume é a imagem que poderá ser de algum objeto, um objeto quase sempre de fetiche, e a imagem do outro, como forma de encontrar o significado da própria existência. Portanto, quando uma idéia ou alguma coisa é lançada através da imagem e da publicidade e que consegue produzir um forte apelo midiático a atingir o imaginário do sujeito, provocando um efeito que por analogia iremos compará-lo ao da letra quando cola no corpo – termo psicanalítico –, a imagem oferecida pelo objeto é incorporada pelo sujeito com o seguinte apelo: “você pode ter” ou então “o que você está esperando para ter?” Essa imagem pode ser, por exemplo, a de um carro perfeito para a família com um espaço amplo na mala ou de um carro esportivo admirado por homens e mulheres, uma jóia, uma viagem ou mesmo um corpo esculturalmente perfeito.

O esvaziamento do desejo produz apenas o efeito de significação e mostra o quanto o sujeito está desamparado de significantes que o nomeie como sujeito desejante, restando-lhe, apenas, o gozo imaginário que o outro oferece. Na significação, a imagem ocupa o lugar do ser (que é, de fato, um lugar vazio); do ponto de vista da constituição subjetiva. Se o ser produz uma ilusão de identidade quando o sujeito encontra a sua imagem, o ser se ancora na fortaleza narcísica da imagem do corpo.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo e pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise, graduando do 8º período de psicologia. 
  



quarta-feira, 10 de julho de 2013

UM LOUCO QUE COMPARTILHA SUA LOUCURA

Fonte: http://morichesdaily.com/2012/02/kim-jong-assassinated/

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Nos mais variados períodos da história o mundo é surpreendido pelo comportamento ensandecido desse ou daquele ditador que em seu delírio megalomaníaco, consegue ter em seu discurso um dom que é para poucos, ou seja, o de levar a sua verdade como única e absoluta, o poder do convencimento e apaixonamento de toda uma população em relação as suas idéias delirantes. Durante séculos, homens com o dom da palavra vêm dominando nações, provocando expectativas delirantes ou aterrorizando os poucos que não foram contaminados com sua loucura, ou seja, que não se renderam a uma psicose compartilhada. Um desses homens foi Adolf Hitler, que com seu discurso autoritário, porém extremamente carismático, levou toda uma nação ao fanatismo nazista.

Conforme um perfil psicológico realizado pelo psiquiatra Henry Murray, no ano de 1943, da Universidade de Harvard, a pedido do Escritório de Serviços Estratégicos (OSS), Instituição que antecedeu a CIA, para ajudar os aliados a entender o caráter de Hitler, Adolf Hitler era um homem extremamente rancoroso que não tolerava críticas e que tinha tendência a menosprezar as pessoas e a buscar vingança, entre outros fatores de sua conturbada personalidade.

Atualmente, o ditador de plantão é o Kim Jong-um da Coréia do Norte, que vem colocando o mundo em estado de alerta por suas ameaças de lançar mísseis contra a vizinha Coréia do Sul, Japão e na base norte-americana em Guam. Já se sabe que o míssel Musudan norte-coreano poderá ser lançado levando uma pequena ogiva nuclear que tem a capacidade de alcançar o Japão e a base norte-americana. O terror psicológico do ditador já mobilizou a defesa dos países ameaçados e de outros que estão ao alcance de seus mísseis.

Toda essa ameaça pode se tratar apenas de um mero blefe, fruto de um delírio passageiro ou não, podendo ser  a primeira guerra mais anunciada e caprichosamente preparada no mundo. Mesmo assim, seria um comportamento tresloucado que prenunciaria uma forte tendência suicída, a se comparar com o poderil bélico que juntas as nações envolvidas possuem. Portanto, a história se repetiria mais uma vez. De um lado, um ditador em surto; do outro, uma população que compartilha de sua loucura, indivíduos sem singularidade, sem vontade própria e que só pensa através de seu líder.

Quem já assistiu pela televisão o desfile militar daquele país poderá compreender facilmente o que estamos dizendo. A pergunta que podemos lançar mão é: como se chegou a esse ponto, como toda essa população ficou estagnada em seu pensar, em sua singularidade? O primeiro fator e centralizador de outros é o longo tempo de opressão sofrido por essas pessoas. Se todas as expectativas, sonhos e desejos foram retirados desses indivíduos só restou como medida de gratificação o desejo do Outro, o desejo do ditador, ou melhor dizendo, a loucura de seu líder. O Estado invadiu tanto as almas desses sujeitos que se tornou a própria alma deles. Lutar e morrer não é tão diferente de se viver como se vive, pois esses sujeitos já estão mortos há muito tempo.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo e pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise, graduando do 8º período de psicologia.


Artigo publicado no Jornal Diario de Pernambuco na edição de 19/04/2013   

terça-feira, 9 de julho de 2013

ATIVIDADE CEREBRAL DOS MÉDIUNS


ESTUDO FAZ ANÁLISE DURANTE A PSICOGRAFIA

Uma pesquisa desenvolvida em nível mundial, que contou com o uso da neuroimagem, avaliou o fluxo sanguíneo cerebral de médiuns brasileiros durante a prática da psicografia. O estudo trouxe resultados no mínimo intrigantes no que se refere à menor atividade cerebral no momento do estado dissociativo mediúnico, mesmo com a geração de complexos conteúdos escritos. O trabalho foi elaborado por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (Ipq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais, da Universidade da Pensilvânia e da Universidade Thomas Jefferson, as duas últimas nos Estados Unidos.

A pesquisa reuniu dez médiuns brasileiros, com 15 a 47 anos de experiência mediúnica, e aproximadamente 18 psicografias por mês, destros e com plena saúde mental.

Os participantes receberam um marcador radioativo para registrar a atividade cerebral durante a escrita normal e na prática da psicografia, em estado de transe. Os médiuns foram escaneados, usando SPECT (tomografia computadorizada com emissão de fóton único) para destacar as áreas do cérebro que são ativas e inativas durante as respectivas tarefas.

Os pesquisadores observaram que, durante a psicografia, os médiuns experientes apresentaram níveis mais baixos de atividade nas áreas do cérebro associadas ao planejamento, raciocínio, geração de linguagem e solução de problemas em relação à escrita normal. As amostras de escrita produzidas foram analisadas e se verificou que os textos psicografados foram mais complexos do que os conteúdos produzidos no estado de vigília. Os conteúdos gerados durante as psicografias envolveram princípios éticos e espirituais e a importância da união entre a Ciência e Espiritualidade.

INVESTIGAÇÕES FUTURAS
De acordo com o primeiro autor do estudo, o psicólogo clínico e pesquisador do Programa Saúde, Espiritualidade e Religiosidade do Ipq, Julio Peres, embora a razão dos resultados não seja completamente conhecida no momento, essa primeira avaliação neurocientífica fornece dados interessantes sobre estados dissociativos mediúnicos alinhados à compreensão da mente e sua relação com o cérebro. Os achados merecem futuras investigações.


Fonte: Agência USP.